Início de maio 2020
Dois aposentados, velhos amigos, quase todos os dias se encontram na praça
para jogar dama.
Justino é viúvo há pouco tempo. Ele sempre tem roupas bem
passadas e pisantes lustrados, seu cabelo é usualmente penteado para trás.
Carrega no bolso um daqueles pentes de plástico comprados em armarinhos de
coisas antigas. Percebe-se que o objeto é gasto mas ele sempre faz questão de
limpá-lo. Acompanhado do seu pente, no bolso de trás da calça carrega um lenço
também bem passado e engomado. Gosta de vestir com um pulôver cinza, calças de
alfaiataria passadas com friso, cintos ajustados. Gosta de usar colônia de
alfazema e relógio de pulseira metálica também ajustado no pulso.
Sebastião é casado com Tininha, a merendeira da escola. Se
veste com certo desleixo. As sandálias de couro amassadas pelos calcanhares
rachados e encardidos. As calças sempre estão caídas para baixo do rego da
bunda, mostrando as curvas dos quadris quando as partes de cima são sopradas
contra o vento. Nem sempre está de cinto. Gosta de camisas mais largas. Os
óculos quase na ponta do nariz parecem
terem grau em demasia para seu tamanho de rosto. Os cabelos são curtos não
rentes ao cocuruto mas de tamanho suficiente para estarem sempre desalinhados
como se acabasse de levantar da cama. A dentadura às vezes aparece em sílabas
na boca entreaberta dos fonemas.
Os dois velhos amigos
tem lugar garantido na praça, as chegadas são sempre por volta das 9:00 da
manhã. Sebastião é um ganhador do jogo, quase invicto, poucas vezes Justino o
superou.
Justino é o primeiro a chegar. Sebastião só aparece depois
de tomar uma média na lanchonete do Rocha na esquina da praça. Justino sempre o
espera ancorado na placa de proibido estacionar, lendo o jornal popular
distribuído gratuitamente. Tem dias que o amigo sai do bar sem a média mas com
uma branquinha na cabeça. Nesses dias já sai gritando da lanchonete:
- “ A vida é boa
mas não presta”!
Justino do lado de lá da rua, só abana os braços e responde.
“Ohh maldito! Rapadura é doce mas não é mole não!
Os dois caem na
gargalhada.
Sebastião quando se aproxima é sempre palavras aleatórias
que saem, como se encontrasse alguém íntimo mas com o protocolo dos
cumprimentos de cavaleiros.
E numa fungada de respiro curto
---- OHhh bom sô!!!!
Justino sempre se queixa alegre que o amigo não o convida
para o melhor momento do dia.
Os dois descem pelos canteiros centrais da praça em direção
a mesa de cimento com tabuleiro pintado. É Justino quem carrega a sacolinha de
pano preta com as peças do jogo. Os dois ajeitam a calça para sentar, sempre um
de frente para o outro.
Justino e
Sebastião conversam sobre família, contam causos e sempre falam de seus desejos
e sonhos.
Sebastião sempre reclama do mundo de hoje, diz que seria bom
mesmo é dar no pé da cidade, ir para outro canto do mundo.... Justino acompanha
o desejo do amigo, reclama da solidão e diz que não falta muito pra partir para
uma melhor....